segunda-feira, 1 de março de 2010

Socialismo no século XXI

Iniciamos o século e antes de terminar a primeira década, a crise econômica acontece nos países mais desenvolvidos. Não há nenhuma outra matriz de conhecimento que conhece mais a dinâmica destas crises do que a teoria marxista. Em sua obra “O Capital” Karl Marx desvenda os meandros do modo de produção capitalista.
Os operários modernos da grande indústria são lançados aos milhões no mundo do desemprego e a classe média que atua como sustentáculo da política burguesa, passa por acelerado processo de inadimplência. Há anos já se publicava na imprensa comentários sobre o processo de falência do consumidor norte-americano.

Em todas as partes do mundo, a indústria e o comércio estão plenamente subordinados ao capital financeiro que financia tudo e a quase todos. Atua como vampiro sugando a renda. Provoca assim o maior fenômeno de concentração de renda já visto na história do capitalismo.

Mas como já previa Marx, as contradições deste desenvolvimento atuavam silenciosamente, vindo à tona provocando a crise.

A burguesia na luta diária para maximizar seus lucros, não ficou de braços cruzados. Independente de fronteiras, investiu na produção onde lhes era possível a maior margem de lucro, definiu uma política neoliberal para impedir restrições em sua ação em todas as partes de mundo, atua em todos os sentidos para otimizar ao máximo a mais-valia. Investiu pesado no avanço tecnológico para aumentar a produtividade e nunca a humanidade teve antes tanto acesso aos produtos industrializados como agora. Houve significativa redução nos preços dos produtos que representam sonho de consumo da multidão e o capital financeiro altamente concentrado e na busca incessante para se multiplicar, estabelece política agressiva de financiamento destes consumidores.

Por paradoxal que parece, milhões de camponeses que viviam em situação de total miséria no campo, principalmente na China, foram introduzidos no mercado de trabalho capitalista. Contraditoriamente, com relação a padrões anteriores, este mesmo mercado de trabalho foi violentamente precarizado. Passamos por um momento de redução significativa de direitos trabalhistas e a aplicação de métodos que acirram a concorrência e a divisão do proletariado. O taylorismo, o fordismo e mais recente o toyotismo , este de origem japonesa, se expande por todas as corporações do mundo e tem sido ferramenta importante para manter controle político e social sobre o coletivo dos trabalhadores.

No Brasil, o PT que em mais de uma década representou a luta do operariado moderno, aderiu definitivamente ao projeto de conciliação de classes. O PC do B lhes é uma força auxiliar e a construção do PSOL representa para nós um desafio no processo de construção de uma ferramenta para o operariado. Não temos nenhuma organização operária que lute autenticamente pelo socialismo com articulação a nível mundial. Temos apenas pequenas organizações, principalmente seguidoras das idéias de Trotsky, que sem muito sucesso tentam esta articulação a nível mundial.

O desenvolvimento econômico do Brasil é significativo e concentra milhões de operários espalhados por todo o território nacional. Cabe ao operariado construir uma ferramenta política que represente seus verdadeiros anseios e não tenha dúvidas quando à necessidade de destruir o poder da burguesia. Estamos no PSOL achando que possa se constituir nesta ferramenta. Entretanto, lendo os documentos sobre “Socialismo e Poder Local” · onde representantes das correntes internas manifestaram suas opiniões, não sentimos que possa estar caminhando nesta direção.

Não podemos autoproclamarmos donos da verdade como é prática na maioria das correntes trotskistas e especialmente no PSTU, mas precisamos definir com base nas contradições da realidade atual o caminho a seguir para contribuir para que o movimento operário assuma seu papel, se preparando para ser a vanguarda do movimento revolucionário.

Respeitando a coragem e o espírito de luta de milhares de militantes que pereceram na luta contra a ditadura e em outros movimentos de libertação pelo mundo inteiro, devemos entender que não são grupos de jovens revolucionários que irão substituir o proletariado na construção de uma sociedade comunista.

Movimentos como a intentona comunista no Brasil em 1935, a revolução Chinesa em 1949, a revolução cubana em 1959, movimentos de guerrilha ao estilo Che Guevara, ações como a guerrilha do Araguaia dirigida pelo PC do B, devem servir de exemplo como movimentos de luta contra a opressão ditatorial e por liberdade, mas nestes movimentos não tinham, pelas próprias condições do cenário onde aconteceram, o operariado como a força motriz. As classes que davam sustentação a estes movimentos era o campesinato, a classe média, a pequena burguesia. Revolução socialista, na linha definida pela concepção marxista expressa de forma sistematizada no Manifesto Comunista de 1848, só a classe operária organizada tem condições de implementá-la. Não é a ação de um grupo bem intencionado que chegará ao socialismo. Podem até conquistar o poder político, como aconteceu na China, em Cuba e até mesmo na Rússia, mas nunca construir uma sociedade comunista.

A versão moderna da concepção que pretende chegar ao socialismo sem o operariado como vanguarda, é hoje liderada por Hugo Chaves na Venezuela, com vertentes na Bolívia, no Equador, Chile e Argentina. Lula já assumiu definitivamente a humanização do capital financeiro, perdendo definitivamente as esperanças no socialismo pequeno-burguês.

Precisamos, de forma coletiva, fazer uma leitura do manifesto comunista de 1848. Analisar o que como linha geral permanece atual e com rigorosa análise da evolução histórica do capitalismo e da luta da classe operária, traçarmos a estratégia e a tática da luta por uma sociedade comunista.

Devemos de forma consciente organizar a ação da militância e não mergulhar na confusão de uma política de frente popular. Não pretendemos substituir a classe operária em seu papel histórico, ao contrário, vamos construir um partido comunista que seja o laboratório ideológico, político e a ferramenta do operariado para derrubar a burguesia e iniciar a construção de uma sociedade comunista em todo o mundo.

Devemos combater firmemente o revisionismo que tem o claro papel de confundir e propor a conciliação de classes, como faz por mais de um século. Por outro lado, não podemos nos esconder em guetos, devemos disputar palmo a palmo a influência política e ideológica com a burguesia, combater as idéias pequeno-burguesas que ainda hoje acreditam no socialismo utópico e não enxergam a luta de classes. Hoje se trata de uma revolução essencialmente socialista e a classe operária moderna, por sua condição no processo produtivo, é a única classe verdadeiramente revolucionária. Mais do que nunca é necessário construir este partido operário. Ter consciência que uma revolução para seguir o rumo do socialismo deve ter forte articulação com o operariado do mundo inteiro, principalmente com o operariado moderno dos paises mais desenvolvidos.

Quem está na fábrica produzindo riqueza são os operários, articulados pela burguesia, que no capitalismo tem o poder da direção, apropriação da riqueza gerada na unidade produtiva e controle sobre o Estado. Só este operariado tem condições de dispensar, através do processo revolucionário, o burguês. Só o operariado pode liderar a construção de novo Estado e iniciar novo processo de produção e gerenciamento da riqueza onde não seja permitida a “escravidão do sistema de salários” e elimine definitivamente a exploração do proletariado. Só o operariado tem fortes motivos para construir uma sociedade comunista.

Carlos Lopes

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